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Por Gilberto Figueiredo   

Rocinha: Bairro ou Favela?


A comunidade da Rocinha vive há muito tempo o dilema de ser classificada por uns como bairro, e por outros como favela, e sobre isso, ironicamente, seus moradores dizem que  ela é a melhor favela do Rio de Janeiro, ou, quem sabe, o pior bairro. Mas quem passa pela Auto-estrada Lagoa-Barra com o olhar atento verá o grande aglomerado em tonalidade tijolo pontuado por esparsos azuis, verdes, laranjas e amarelos, e com certeza, apesar da mata virgem que compõe o entorno desta paisagem, não terá vontade de morar ali. A nítida sensação de que a maioria daquelas construções está na eminência de se estatelar no asfalto a qualquer momento, e de que para se chegar nas casas mais altas é preciso passar por dentro de muitas outras que estão abaixo, nos leva a indagar sobre os motivos que conduzem alguém a propor esta classificação de bairro para esta localidade.


Saindo do plano da observação à distância a partir da janela do automóvel e partindo para uma caminhada pelos corredores que cortam a favela (prefiro chamar assim), podemos perceber com mais clareza a forma como está organizado este espaço geográfico. Tendo como limite na parte mais baixa a Auto-estrada Lagoa-Barra, via expressa que liga a Zona Sul à Zona Oeste do Rio, e na parte mais alta a Floresta da Tijuca, a Rocinha é dividida em diversas localidades: Dionéia, Vila Verde, Rua Um, Roupa Suja, Bairro Barcelos, Laboriaux, etc, são alguns exemplos, cada um com suas características peculiares. Enquanto no Bairro Barcelos, por exemplo, encontramos uma grande variedade de comércio e serviços e um grande número de imóveis residenciais com qualidade semelhante a dos bairros do subúrbio de nossa cidade, alguns com bastante conforto até, na Roupa Suja encontramos um grande aglomerado de moradias extremamente precárias que abrigam famílias vivendo em situação de extremo risco social. Um microcosmos a situação social do nosso país.


De cima a baixo, ligando o bairro da Gávea à São Conrado, a favela é cortada pela  Estrada da Gávea que no início do século passado era uma área nobre com casarões cercados pela mata virgem que abrigavam famílias tradicionais, e que hoje é uma via congestionada pelos ônibus e carros em excesso que por lá circulam. Duas ruas, o Caminho do Boiadeiro e a Via Ápia ligam esta estrada à Auto-estrada Lagoa-Barra por onde também é possível, com um pouco de paciência, circular de automóvel. Algumas Travessas ligam estas duas ruas se transformando em ladeiras íngremes após o Caminho do Boiadeiro, nelas não é comum o transitar de automóveis, e por isso são transformadas em área de lazer pelas crianças que ali brincam por entre os transeuntes. Além destas vias, a Rua do Valão e a Rua Um são outros dois corredores por onde circula um inacreditável número de moradores que, maioria absoluta com certeza, moram em becos cujo acesso só é conhecido por quem mora neles. Como é difícil encontrar os endereços na Rocinha!!


É nesse labirinto que pulsa a comunidade da Rocinha, num vai e vem incessante a qualquer hora do dia, noite ou madrugada, em meio ao abundante comércio de quinquilharias, produtos nordestinos e utensílios domésticos que divide espaço com os pontos de venda de drogas que funcionam impunemente nas esquinas, mesmo à luz do sol. Alguns bares não têm portas e funcionam 24h por dia durante todos os dias do ano oferecendo da cachaça ao uísque, do lanche ao jantar; lanchonetes de fast food como Bob’s se misturam aos botequins e pastelarias; duas agências bancárias, Itaú e Caixa Econômica, nos põem em dúvida se não seria mesmo a Rocinha um bairro; e outras redes de drogarias, lojas de fotografia e de eletrodomésticos reforçam esta idéia ao oferecerem emprego à moradores de outros bairros que ao cair da tarde lotam os pontos de ônibus do local.


Mas se há ali poder de compra que justifique toda esta oferta, inclusive com a presença de logomarcas conhecidas em todo o país e até em outros países, há também, e em grande maioria, uma enorme demanda pelos serviços da área da Saúde e da Educação cuja oferta está muito distante do que seria necessário. A parcela da população que consome apenas o básico e que por questões estruturais demanda uma atenção especial por parte das instituições responsáveis por estes serviços, fica parcialmente desatendida, o que justifica a presença na comunidade de diversas organizações não governamentais que tentam preencher a lacuna deixada pelo Estado através da oferta de atividades e serviços que visam melhorar a qualidade de vida das famílias.


Considerando o que foi dito, para mim não resta dúvida: a Rocinha é uma favela e não um bairro. Prefiro tratar desta forma para não deixar dúvidas quanto a minha indignação com relação às condições extremamente precárias em que vive a maioria dos moradores daqui.


Sua população, estimada em 120.000 moradores pelos registros da Companhia de Energia Elétrica, em 62.000 pelo último censo oficial e em mais de 150.000 segundo os moradores, é formada, na maioria, por nordestinos (muitos dizem que ela é um pedaço do Ceará em pleno Rio de Janeiro), e por isso os traços da cultura dessa região do Brasil se fazem presentes em cada rua, beco ou loja. A trilha sonora que mais se ouve nos alto-falantes das barracas que vendem os CDs piratas é o forró e suas variantes. À noite nos clubes, bares e botecos, ouve-se samba, funk, etc, mas o que prevalece é o arrasta-pé com a boa música nordestina de Luiz Gonzaga, Dominguinhos e outros, e também com a nova safra de conjuntos que executam uma versão mais moderna do forró que muitos chamam de brega. Nos aglomerados de camelôs, compra-se rapadura, carne de sol, feijão de corda, milho assado e muito mais. Enfim, o sotaque nordestino é o que mais se ouve no murmurinho das ruas. Essa é a Favela da Rocinha.

 

Gilberto Figueiredo

Coordenador da EMR


 

Escola de Música da Rocinha

Av. Niemeyer, 776 - 17º andar
São Conrado - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 311-1165 / 3111-1166